Yayoi Kusama: quando a repetição se transforma em infinito
Poucos elementos visuais se tornaram tão reconhecíveis na arte contemporânea quanto as bolinhas de Yayoi Kusama. Presentes em pinturas, esculturas, objetos e instalações, elas se multiplicam até quase apagar aquilo que existe por baixo. Em sua obra, porém, a repetição está longe de ser apenas decorativa: é uma maneira de investigar infinito, percepção, identidade e desaparecimento.
Nascida no Japão em 1929, Kusama começou a desenhar ainda criança. Em 1957, mudou-se para os Estados Unidos e, no ano seguinte, chegou a Nova York, onde encontrou uma cena artística em intensa transformação. É nesse período que desenvolve as primeiras pinturas da série Infinity Nets, construídas a partir de milhares de pequenas marcas repetidas. A superfície deixa de ter um ponto central e parece continuar para além dos limites da própria tela.
Yayoi Kusama. Anos 60. Imagem: Stedelijk Museum
Nos anos 1960, essa pesquisa se expande para esculturas, performances e instalações. Nos Infinity Mirror Rooms, os espelhos multiplicam luzes, objetos e o próprio corpo do visitante. A ideia de infinito deixa de estar representada apenas na superfície da obra e passa a ser vivenciada dentro dela. Ao entrar nesses espaços, o espectador se vê repetido inúmeras vezes, tornando-se simultaneamente presente e quase anônimo.
A repetição também atravessou outros campos. Em 2012, Kusama iniciou uma colaboração com a Louis Vuitton, levando seus pontos, cores e padrões para bolsas, acessórios e objetos da Maison. A parceria aproximou ainda mais sua produção do universo da moda e do design e foi retomada em 2023, em uma nova coleção.
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No Brasil, a obra de Kusama encontrou no Instituto Inhotim um espaço particularmente significativo. Além de Narcissus Garden, o instituto abriga uma galeria permanente dedicada à artista, reunindo outras duas instalações. Apresentada pela primeira vez em 1966, Narcissus Garden é formada por 750 esferas de aço inoxidável que criam uma superfície em constante transformação. Céu, vegetação, arquitetura e os próprios visitantes se refletem e se fragmentam, fazendo da paisagem um campo instável de imagens e dissolvendo continuamente os limites entre indivíduo e espaço.
Narcissus Garden Inhotim (2009) de Yayoi Kusama. Imagem: Inhotim
Ao longo de mais de sete décadas, Kusama construiu um repertório próprio a partir de pontos, redes, espelhos, abóboras, flores e superfícies infinitamente repetidas. O que parece simples à primeira vista revela uma pesquisa contínua sobre a percepção e os limites entre o indivíduo e o espaço que o cerca.
Sua produção também ultrapassou as fronteiras da arte contemporânea para alcançar a moda, a literatura, o cinema e a cultura popular, sem deixar de preservar a coerência de uma investigação iniciada ainda nos primeiros anos de sua carreira.
Yayoi Kusama morreu em agosto de 2026, aos 97 anos, em Tóquio. Até o fim da vida, permaneceu produzindo a partir do mesmo universo que construiu ao longo de décadas. Seu legado está justamente nessa capacidade de transformar elementos aparentemente simples em experiências de escala quase ilimitada — fazendo da repetição não um ponto de chegada, mas uma maneira de continuar procurando o infinito.


