Casa 7: experimentação e renovação da pintura brasileira
Na primeira metade dos anos 1980, um grupo de jovens artistas transformou um ateliê em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, em um espaço de experimentação que marcaria a arte brasileira. Conhecido como Casa 7, o grupo reuniu Carlito Carvalhosa, Fabio Miguez, Nuno Ramos, Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade em torno de pesquisas compartilhadas sobre a pintura, seus materiais e as possibilidades de expressão da imagem.
Mais do que um espaço de trabalho, o ateliê proporcionava uma convivência intensa, na qual os artistas trocavam referências, discutiam processos e desenvolviam suas produções em diálogo. A experiência aconteceu em um período de transformações políticas e culturais no Brasil, marcado pela redemocratização e pela retomada da pintura como linguagem expressiva.
A pintura como campo de experimentação
A Casa 7 integrou o movimento de renovação da pintura que marcou a década de 1980. Em um cenário de crescente interesse pela expressividade e pela materialidade da imagem, os artistas exploraram gestos amplos, cores intensas e suportes de grandes dimensões. O uso de materiais acessíveis, como papel kraft e esmalte sintético, permitia trabalhar com liberdade, valorizando a espontaneidade e o próprio processo de criação.
A produção do grupo dialogava com tendências internacionais, como o neoexpressionismo alemão e a Transvanguarda italiana, mas desenvolvia uma linguagem própria. As pinturas evidenciavam a presença física do gesto e a relação direta com os materiais, sem se prender ao acabamento tradicional ou a uma identidade estética rígida.
A Grande Tela e a Bienal de São Paulo
Em 1985, a participação na 18ª Bienal Internacional de São Paulo ampliou a visibilidade da Casa 7. Sob curadoria de Sheila Leirner, obras de grandes dimensões foram apresentadas lado a lado, compondo o conjunto conhecido como A Grande Tela. A montagem aproximava diferentes artistas e produções, destacando a intensidade da pintura contemporânea naquele momento.
A experiência consolidou a presença do grupo no debate artístico brasileiro. Nos anos seguintes, seus integrantes seguiram caminhos próprios, desenvolvendo pesquisas que ultrapassaram as características compartilhadas no ateliê. A Casa 7 permaneceu, assim, como um importante momento de formação e troca, anterior à consolidação de trajetórias individuais distintas.
Cinco artistas, diferentes caminhos
A diversidade das pesquisas desenvolvidas posteriormente evidencia o alcance daquela experiência. Carlito Carvalhosa ampliou sua produção para a escultura e a instalação; Nuno Ramos passou a transitar entre pintura, escultura, literatura e vídeo; Paulo Monteiro aprofundou investigações sobre matéria e volume; e Rodrigo Andrade construiu uma trajetória marcada pela pintura e pelas relações entre figuração e abstração.
Fabio Miguez, por sua vez, expandiu sua pesquisa pictórica para questões relacionadas à cor, à transparência, à geometria e à espacialidade. As transformações em sua obra demonstram como a experiência coletiva da Casa 7 não estabeleceu um estilo único, mas ofereceu um ponto de partida para pesquisas autônomas.
A relevância do grupo reside justamente nessa combinação entre convivência e independência criativa. Mais do que uma linguagem compartilhada, a Casa 7 representou uma maneira de produzir arte baseada na experimentação, na troca e na liberdade de investigação.
