​Iberê Camargo, Figura (1964) e Dédale: quando a pintura encontra o cinema

Uiara Azevedo 440 views Nenhum comentário

Ao longo de sua trajetória, a obra de Iberê Camargo estabeleceu um diálogo permanente com diferentes linguagens artísticas. Essa capacidade de ultrapassar os limites da pintura encontra uma de suas expressões mais significativas em Dédale (2009), curta-metragem do cineasta francês Pierre Coulibeuf realizado na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Mais do que um filme sobre o artista, a obra transforma pintura, arquitetura e cinema em uma única experiência visual, na qual cada linguagem amplia o significado da outra.

Concebido por Coulibeuf como um percurso sensorial, Dédale afasta-se da estrutura documental tradicional. Em vez de reconstruir a biografia de Iberê Camargo, o diretor utiliza a câmera para explorar a relação entre espaço, memória e imagem, conduzindo o espectador por uma narrativa em que as pinturas surgem como presenças vivas, capazes de reorganizar a percepção do ambiente e do tempo.

Produzido em 35mm, o curta utiliza os corredores e rampas do museu em Porto Alegre como uma estrutura cinemática onde atores evocam personagens míticos.

Essa construção seria inseparável da arquitetura da Fundação Iberê Camargo, projetada pelo arquiteto português Álvaro Siza. Inaugurado em 2008, o edifício foi concebido como uma sequência contínua de percursos, rampas e planos de luz que conduzem o visitante pela experiência da obra. Em Dédale, essa arquitetura deixa de ser apenas o cenário do filme para tornar-se parte de sua linguagem, estabelecendo um diálogo direto com a densidade pictórica de Iberê. A câmera percorre o edifício da mesma maneira que percorre as superfícies das pinturas, aproximando matéria, espaço e movimento.

Entre as obras presentes no filme está Figura (1964), realizada em um momento decisivo da trajetória de Iberê Camargo. Produzida em um período de intensa investigação formal, a pintura evidencia uma linguagem que progressivamente se afasta da representação para concentrar-se na expressividade da matéria, do gesto e da construção espacial. A figura permanece como ponto de partida, mas já se dissolve em uma superfície pictórica marcada pela tensão entre forma e movimento, antecipando questões que se tornariam centrais na produção do artista nas décadas seguintes.

Obra Figura, 1964 - Cena do filme Dédale.

Em Dédale, Figura não aparece como uma simples ilustração da trajetória de Iberê Camargo. Sua presença integra a própria construção visual do filme, estabelecendo relações com a arquitetura de Siza, com o ritmo dos enquadramentos e com a atmosfera silenciosa criada por Coulibeuf. A pintura torna-se parte da narrativa cinematográfica, revelando como uma mesma obra pode adquirir novos significados ao atravessar diferentes linguagens. Essa aproximação evidencia um aspecto fundamental da produção de Iberê Camargo: sua pintura permanece aberta a novas leituras muito além do contexto em que foi realizada. Décadas após sua criação, Figura continua a produzir encontros entre diferentes campos da arte, reafirmando a potência de uma obra que se mantém contemporânea e capaz de dialogar com o presente.

Dédale é uma filme-instalação inspirada no universo artístico e criativo de Iberê Camargo.

Na seleção de obras apresentada pela Blombô em seu leilão de arte em Belo Horizonte, Figura (1964) ocupa um lugar de destaque justamente por reunir essas múltiplas camadas de significado. Além de representar um momento fundamental da trajetória de Iberê Camargo, a pintura inscreve-se em um diálogo singular entre arte, arquitetura e cinema, ampliando sua relevância histórica e oferecendo uma oportunidade de aproximação com um dos mais importantes nomes da arte moderna brasileira.

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