Renot

Composição Floral Óleo sobre Tela , 1970 Assinada no canto inferior direito 72 x 92 cm
R$12.100,00



Renot construiu uma trajetória singular nas artes brasileiras, conciliando, ao longo de décadas, sua produção autoral com uma atuação decisiva na promoção, circulação e comercialização da arte.

Sua aproximação com a pintura teve início em 1957, aos 25 anos. Nesse primeiro momento, encontrou no universo de Lampião e do cangaço uma importante fonte de inspiração, incorporando à sua produção referências profundamente ligadas ao imaginário e à cultura do Nordeste brasileiro.

Poucos anos depois, sua atuação ultrapassaria os limites do ateliê. Em 1960, em Salvador, participou de uma iniciativa voltada ao fortalecimento do mercado de arte local e, ao lado de amigos, fundou a Galeria Manoel Querino. O espaço tornou-se ponto de encontro e exposição para artistas de projeção nacional, recebendo nomes como Di Cavalcanti, Djanira, Manabu Mabe, Aldemir Martins e Antonio Bandeira, entre muitos outros.

Foi também durante a década de 1960 que surgiu o nome pelo qual se tornaria conhecido. “Renot” foi criado pela direção do Jornal da Bahia para assinar a coluna social “Gran Mond”. A repercussão da coluna ampliou sua presença na vida cultural e social baiana, levando posteriormente seu trabalho jornalístico ao Estado da Bahia, periódico pertencente aos Diários Associados. Nesse período, sua atuação estendeu-se ainda à televisão e ao rádio: apresentou um programa na TV Itapoan e comandou outro na Rádio Sociedade da Bahia, onde entrevistava personalidades de destaque.

Paralelamente à comunicação, Renot continuou aprofundando sua relação com as artes visuais. Em 1969, participou da exposição coletiva que marcou a inauguração do Paço das Artes, em São Paulo. Entre aqueles que acompanharam e incentivaram sua trajetória estavam personalidades como Carlos Eduardo da Rocha, então diretor do Museu do Estado, e o escritor Jorge Amado.

No final da década de 1960, Renot estabeleceu-se definitivamente em São Paulo. Em 1972, abriu nos Jardins a Galeria Renot, espaço que se tornaria uma referência no circuito artístico da cidade. Ao longo de sua história, a galeria apresentou exposições de artistas como Francisco Rebolo, Aldemir Martins, Fulvio Pennacchi, José Antonio da Silva, Di Cavalcanti, Cícero Dias e Rubens Gerchman, além de numerosos outros nomes da arte brasileira. Como galerista e agente cultural, Renot contribuiu de maneira expressiva para a divulgação e inserção comercial da produção de diferentes artistas.

Embora sua atividade no mercado de arte tenha ocupado uma parcela importante de sua trajetória, Renot nunca abandonou a criação. Sua produção desenvolveu uma linguagem fortemente associada à memória e à paisagem baianas. Casarios antigos de Salvador, celebrações populares, pássaros, animais e a exuberante vegetação do Recôncavo Baiano aparecem transformados por uma visão que combina observação, lembrança e imaginação.

A cor ocupa posição central em sua obra. Tons intensos, com presença recorrente do azul e de suas inúmeras variações, estruturam paisagens nas quais arquitetura e natureza parecem se misturar. Em vez de uma representação estritamente documental, Renot constrói um Brasil atravessado pela fantasia, pela sensualidade e por uma atmosfera quase onírica. Flora, fauna e elementos da cultura popular tornam-se parte de um universo no qual realidade e imaginação coexistem de maneira indissociável.

Essa linguagem também encontrou expressão na tapeçaria. Distanciando-se do procedimento tradicional de elaborar previamente um cartão para depois transferir o desenho ao suporte, Renot desenvolve suas composições diretamente sobre o tecido. Após definir desenho e paleta cromática, realiza o trabalho de bordado, fazendo de cada peça uma criação individual. Os temas mantêm estreita relação com sua pintura e com suas referências afetivas à Bahia.

Em 2008, a exposição “Renot em 20”, realizada na Cristal Pizza Bar, reuniu trabalhos pertencentes a diferentes momentos de sua produção. A mostra apresentou ainda uma interpretação lúdica de sua obra por meio de um grande quebra-cabeça criado a partir de uma de suas composições e montado durante a exposição.

Após mais de quatro décadas de atuação à frente da Galeria Renot, o artista encerrou as atividades do espaço em 2014. A partir de então, passou a concentrar-se integralmente em sua produção no ateliê, aprofundando suas pesquisas em pintura e tapeçaria. Suas criações também passaram a despertar o interesse de empresas que incorporaram trabalhos do artista a projetos e ambientes institucionais.

Com uma trajetória que atravessa mais de seis décadas, Renot ocupa uma posição particular no cenário artístico brasileiro: além de desenvolver uma produção marcada pela identidade cultural baiana, participou ativamente da construção e dinamização do mercado de arte. Sua obra permanece reconhecível pela intensidade cromática, pelo caráter imaginativo e pela maneira poética com que transforma paisagens, fauna, flora e manifestações populares em um universo visual próprio.


BLOG BLOMBÔ