Girassol
Óleo sobre Tela
,
1997
Assinada no canto inferior direito
190 x 180 cm
Reproduzido no catálogo "O universo mágico de Antônio Poteiro", exposição realizada na Legião da Boa Vontade, Brasília, 1997, pág. 7.
Antonio Batista de Souza (Santa Cristina da Pousa, Braga, Portugal, 1925 – Goiânia, Goiás, Brasil, 2010) foi um pintor e ceramista conhecido como um dos grandes representantes da arte naïf brasileira. Sua obra caracteriza-se pela abundância de personagens e detalhes ornamentais, explorando temas sagrados e profanos, numa linguagem que mistura elementos bíblicos, folclóricos, cotidianos e imaginários.
Viveu em Santa Cristina da Pousa até os primeiros anos de vida, mudando-se para o Brasil com a família. Filho de artesãos, perdeu a mãe aos oito anos e saiu de casa aos 16, morando em cidades como Uberlândia (MG) e na Ilha do Bananal (TO) até se estabelecer em Goiânia (GO). Trabalhou como cisterneiro, padeiro, cozinheiro e faxineiro antes de começar a produzir potes de barro. A experiência com cerâmica utilitária o levou a dominar o material e a técnica que mais tarde aplicaria em suas esculturas. Suas primeiras tentativas de criar imagens figurativas foram desafiadoras, mas o contato com a pesquisadora Regina Lacerda (1921-1992), que incentivou o artista a assinar suas peças e adquiriu obras para museus, trouxe reconhecimento ao seu trabalho. Na década de 1970, com o apoio de artistas como Siron Franco (1947) e Cleber Gouvêa (1942-2000), Poteiro também começou a pintar, o que expandiu seu público e sua projeção nacional.
Os temas de Poteiro, tanto em cerâmicas quanto em pinturas, refletem o imaginário popular, a religiosidade e a vida cotidiana local. Ele representa celebrações como a Cavalhada de Pirenópolis e a Festa do Divino, eventos bíblicos como a criação de Adão e Eva e a história dos Três Reis Magos, além de figuras de santos, demônios, cenas de circo, brincadeiras de infância e jogos de futebol. Seu trabalho aborda temas místicos e sociais de forma lúdica, com uma linguagem visual que se afasta das convenções da arte clássica e moderna. As obras possuem um forte apelo narrativo, com cenas detalhadas e uma estética barroca.
As esculturas em cerâmica destacam-se pela superfície texturizada e detalhada, representando figuras e cenas em estruturas circulares densamente povoadas por pessoas e animais. Em A Ecologia, por exemplo, um círculo de figuras indígenas na base é seguido por outra fila de personagens, com uma ave no topo simbolizando proteção. Como apontado pelo crítico Frederico Morais (1936), a acumulação de figuras lembra os tímpanos das igrejas românicas e góticas.
Poteiro também criou peças de figuras únicas, especialmente imagens de santos e representações divinas, como Deus-balança, Deus-tartaruga e Deus-amor. Essas figuras possuem um aspecto rústico, com expressões caricaturais e traços esculpidos em alto-relevo. Em Nossa Senhora Karajá, ele esculpe a santa com um corpo e turbante de folhas, segurando uma criança e cercada por crianças em uma ciranda. A partir dos anos 1970, começou a pintar algumas de suas esculturas, como em Jesus e os Santos (1976).
Nas pinturas, Poteiro evitava o uso de perspectiva, enfatizando a bidimensionalidade. Trabalhando com as duas mãos, ele iniciava a obra com uma cor de fundo e, em seguida, distribuía personagens e objetos, finalizando com os detalhes. Apesar de sua técnica intuitiva, as composições são organizadas de forma simétrica e meticulosamente planejadas, com repetição de figuras em disposições horizontais ou circulares.
Na obra A Semana Santa em Goiás (1980), Poteiro divide a tela em três seções que apresentam cenas distintas: a Procissão do Fogaréu, o nascimento de Jesus e a fuga para o Egito, todas dispostas de forma simétrica, reforçando a coesão da narrativa.
Considerado um dos artistas mais autênticos do Brasil, Poteiro realizou diversas exposições individuais e suas obras fazem parte de importantes coleções públicas e privadas. Sem seguir escolas ou tradições artísticas específicas, ele desenvolveu uma linguagem única que reinventa temas religiosos, folclóricos e imaginários, marcando a arte de Goiás com suas cerâmicas e pinturas ricas em detalhes.