Rogério Tunes

Rogério Tunes

Brasil - 1959

Há obras de arte que se afirmam desde o início pelo sucesso na recepção. Sem agenciamentos do aparatus crítico, sem a propulsão do imperativo da inovação. Tal qual! Empatia espontânea, sincronia nos esquemas de percepção do gusto de um segmento do Zeitgeist com as peculiaridades da fatura e a estética subjacente à obra. Simplicidade no fenômeno da aceitação. Nenhuma grande rationale filosofante a ser perscrutada pela análise crítica.

Assim é o processo de impacto estético da obra de Rogerio Tunes. Essa pintura abstrata informal de cunho episodicamente expressionista, causa bonheur na recepção e certo malaise na critica. Pinceladas vigorosas, arremessos cromáticos, um certo tachismo (na acepção recente de Pierre Guéguem), energia vital que procura expressão plástica... A expressão artística de Rogerio Tunes na pintura é um ato de afirmação artística, uma metáfora do Kunstwollen de um dos paradigmas da teórica estética alemã da virada do século XIX para o XX.

Com percurso acadêmico e profissional nas artes gráficas, a vivência de uma temporada em Nova Iorque, no início da década de 80, terá certamente sido fundamental em seu futuro savoir-faire artístico. Pollock e De Kooning representam, segundo ele, as influências mais decisivas desse período. As variantes de um certo abstracionismo informal em confrontos e metamorfoses com um moderado expressionismo abstrato falam pelas linhas de força, pelo centro de gravidade que sustentam e determinam o ato criativo.

A expressão artística de Rogerio Tunes é depurativa diante de si mesma e do espectador. Ocorre na recepção uma simplificação da carga semiótica; um certo minimalismo polissêmico, não raramente quase rudemente simples em sua expressão. O diafragma que intermedia a obra e a recepção reduz o campo significativo e enfatiza quase que com simplória eloquência o impacto estético em sua mais imediata contundência - enseja o fruir da obra de arte de uma maneira imediata, tout court.

Duveen dissera certa vez que a obra de arte boa para o público e para o marchand é aquela que se vende por si só. Essa afirmação, brutalmente simples, deixa críticos de sobrancelhas arqueadas e diz muito da obra de Rogerio Tunes. Que segredo contêm elas, para além dos cortes e recortes do pós-moderno, que expliquem seu bem sucedido apelo? Uma magia cromática, reverberações discretas de arquétipos no inconsciente moderno? O élan vital que perpassa suas largas pinceladas? O jogo de claros/escuros, de ascendentes/descendentes? A tensão do plano que evita e descarta as profundidades? O pragmatismo abstrato de Rogerio Tunes está em conivência com o espírito da época: despojamento enfático da retórica cromática, eliminação das recorrentes metafísicas.

Mas também a metáfora cósmica permeia o campo cromático e semântico, sístoles e diástoles tachistas evocam a dinâmica das forças de um caos original que ele tenta plasticamente representar... e controlar! Aqui o Kunstwollen se faz mais presente e a sensação e constatação do senso de composição de suas telas restaura-nos a impressão de possibilidade, de terra firme. Por fora do caos, da gigantomachia das convergentes e rispidamente contrastadas cores, existe um formato, um formato de cunho abstrato, um anteparo, um direcionamento estético malgré tout, enfim, uma controlada ousadia; um artista que desordena e restaura ao mesmo tempo. Há algo, até mesmo, de um certo classicismo subjacente, um elemento recorrente, restaurador, talvez um otimismo sísifico que se recusa a arrastar-se pela conflagração desordenada das forcas caóticas que ele procura representar. Há também um certo confronto com o vazio primordial, um desafio diante do horror vacui. O imperativo do rigor é uma herança provável de uma influencia distante, velada, talvez de Mondrian.

A paleta de Rogerio Tunes é decididamente grave, mas de uma gravidade afirmativa, enérgica e otimista. É essa uma de suas diferenças com a variante abstrata da tradição expressionista. Os contrastes ocorrem, sobretudo com as cores frias - um preto onipresente e soberano - entremeados por um episódico elemento restaurador ou transgressor do amarelo ou vermelho, mas que podem também atuar como tenores de seu concerto cromático. Graves, mas não drásticos. Graves e, sobretudo não tristes. Seu amarelo não possui de modo algum a drasticidade emocional de seus antepassados expressionistas. Seu vermelho não é tampouco sentimental, espalhafatoso. É um vermelho ostinato. Se ele excitar em demasia sempre haverá um azul para acalmar. O episódico verde de uma fase pretérita é hoje raro. Uma paleta vital dentro de uma expressão abstrata que se tornou a via do artista, um artista que se recusa a aceitar propaladas definições acadêmicas que lhe enfiem etiquetas como se fossem moldes referenciais a pré-determinar-lhe a produção.

Fonte:
Foto: https://www.annaramalho.com.br/rogerio-tunes-inaugura-sublimacoesq/
Texto: https://www.guiadasartes.com.br/rogerio-tunes/pintor

Obras do Artista

Confira a seleção de obras deste artista

1 Item(s)

  • rogerio tunes 140 x 180 cm
    Rogério Tunes

    "Abstrato"

    Avaliação:

    De: R$12.000,00

    Preço Promocional R$5.800,00

    Por Rogério Tunes "Abstrato"

    Medidas

    Altura: 140 cm

    Largura: 180 cm

    Profundidade: 5 cm

    Descrição

    Técnica: Acrílica

    Data: Anos 2000

    Assinatura: assinado

    Estado de conservação: Bom

    Origem: Brasil

1 Item(s)